Análise Técnica: Você está Fazendo Errado!

Análise Técnica: Você está Fazendo Errado!

Ok, então você acessa o YouTube para olhar os trades ao vivo de inúmeras corretoras e traders independentes (também conhecidos como de varejo, assim como nós) e o que vê?

Bem, além de uma tela suja que não dá pra entender muita coisa, podemos ver uma porção de estudos rabiscado em gráficos junto de umas retas, supostamente traçando um canal de alta, baixa ou revelando um mercado de lado (“Bracketed Market”, em inglês).

O bolo está no forno

Parece simples e funcional: quando o preço cruzar uma das extremidades do canal você compra/vende e quando bater na outra é só fazer o contrário. O que poderia dar errado?

Resposta: tudo!

Essa é a receita de bolo para você fazer 1 milhão, considerando que começou com 2 milhões. Se apenas as coisas fossem tão fáceis…

A ilusão da certificação

“Os analistas que fazem essas análises são certificados, eles têm CNPI!”

E? Isso quer dizer alguma coisa? Qualquer um pode ter uma certificação dessas.

Não me leve a mal, se você a tem e está lendo isso, não é nada pessoal, é apenas fato.

Qualquer um pode estudar, fazer a prova e ser analista. O que vai diferenciar um analista do outro será seu empenho pessoal, como em qualquer outra área do conhecimento.

Quando concluí minha pós graduação em Economia com certeza eu sabia mais do que meus colegas, isso porque eu era muito interessado e esforçado no curso.

Carreguei um ou dois colegas nas costas (o que não recomendo fazer e não mais faço), que acabaram com o mesmo título que o meu, porém, sem metade do meu conhecimento.

DIY

Entende meu ponto? Não confie cegamente em analistas, com certeza sua própria análise será melhor do que a de muitos, mesmo que a mesma seja ruim.

“Afinal, o que quer dizer, Guilherme? Análise técnica não funciona?”

Aí vou ter que dar aquela resposta de homem do tempo: pode funcionar como pode não funcionar.

Para reduzir vou responder que depende. Se você for uma pessoa questionadora vai perguntar: “Depende do que”?

Ora, das condições daquele específico dia, daquele específico ativo que está negociando. Depende, e muito, de uma coisa: o ativo está num dia tendencial/direcional ou não?

Antes de entrar na questão tendencial/direcional (daqui pra frente usarei tendencial, por simples preferência pessoal), vamos rever, rapidamente, três indicadores técnicos:

  1. IFR/RSI (Índice de Força Relativa, ou (Relative Strenght Index), em inglês)
  2. MACD (Moving Average Convergence Divergence, em inglês. Em português seria Divergência e Convergência de Médias Móveis, mas, você provavelmente verá em todas as plataformas a forma em inglês)
  3. Heikin-Ashi (que em japonês significa “barra média” (ou average bar, em inglês)).

IFR/RSI

O que é?

Esse índice é um indicador de momentum. O que ele faz é analisar o tamanho das mudanças recentes no preço para então dizer se o ativo está sobre-comprado ou sobre-vendido.

A escala vai de 0 a 100, onde um valor de 30 ou menos indica uma condição sobre-vendida (um sinal para compra) e um valor de 70 ou mais indica uma condição sobre-comprada (um sinal para venda).

Normalmente é calculado em cima de 14 períodos, mas, pode ser alterado conforme vontade de quem vai usar.

Como é calculado?

O cálculo é bem simples.

Onde:

  • IFR = Índice de força relativa.
  • MG = Média simples dos preços de fechamento do ativo quando o mesmo apresentou ganho.
  • MP = Média simples dos preços de fechamento do ativo quando o mesmo apresentou perda.

MACD

O que é?

Esse índice é um indicador de momentum e tendência. A composição desse indicador é muito simples: uma média móvel exponencial de 12 períodos, que será a de curto-prazo e uma média móvel exponencial de 26 períodos, sendo esta a de longo-prazo.

Assim como no IFR, os períodos podem ser alterados a gosto. A última peça do indicador é a “linha de sinal”, que é a linha central na qual o MACD é plotado.

Essa linha é uma média móvel exponencial de 9 períodos do MACD (podendo ser alterada, também).

No gráfico do indicador terão duas linhas: a do MACD é a de sinal.

Esse indicador dá 3 sinais:

  • Compra – quando a linha do MACD cruza para cima da linha de sinal, indicando momentum de compra.
  • Venda – quando a linha do MACD cruza para baixo da linha de sinal, indicando momentum de venda.
  • Reversão de tendência – quando a direção das linhas do indicador divergem da direção dos preços, indicando um enfraquecimento do momentum atual e uma possível reversão.

Como é calculado?

MACD = MME [CP] – MME[LP]
Sinal = MME [x]

Onde:

  • MME = Média Móvel Exponencial
  • CP = Curto Prazo
  • LP = Longo Prazo
  • x = x períodos do MACD

Heiken-Ashi

O que é?

O Heiken-Ashi é um candlestick diferenciado. A ideia por trás do japonês que o criou era criar um indicador de tendência, filtrando ruídos de mercado a partir de uma fórmula diferenciada. A intenção dessa ferramenta é dar aos traders uma visão mais clara da tendência do ativo. Como ele usa informações do candle anterior para formar o atual, não há gaps, deixando o gráfico mais suavizado para os olhos.

Como é calculado?

Fec = (Abe+Max+Min+Fec)/4
Abe = [Abe (ant) + Fec (ant)]/2
Max = Max (Abe, Fec ou Max – o que for maior)
Min = Min (Abe, Fec ou Min – o que for menor)

Onde:

  • Abe = Abertura
  • Fec = Fechamento
  • Max = Máxima
  • Min = Mínima
  • ant = Candlestick anterior

Perseguindo a sombra

Ah, cara! Um monte de indicador legal que um monte de trader usa e só não funciona com você? Você que é o problema! Vários indicadores de tendência, é só seguir e pronto!

Não. Simplesmente, não. Esse indicadores são “lagging indicators”. O que isso significa?

Que são informações que obtemos após o acontecimento dos fatos.

Nesse caso estamos falando de preços e médias móveis de preços passados, ou seja, estamos sempre olhando o que já foi.

Por definição, quando olhamos para trás podemos ter confirmações de algo que estávamos esperando que acontecesse ou não, mas, não podemos prever o futuro.

Faz total sentido, não?

E é aí que está o grande furo desses três e de outros tantos indicadores na previsão de movimentos do mercado.

Não bata o carro

Se você dirige um carro olhando pelo retrovisor, não tem como prever a curva a frente, e vai rolar o barranco. No trade é a mesma coisa, não pode se operar olhando para trás e tentando adivinhar o futuro com dados passados e só.

Vamos repassar rapidamente umas coisas:

  • O IFR usa a média simples de preços passados para calcular se, agora no presente, há algum sinal de exaustão de um movimento devido a sobre-compra ou sobre-venda de um ativo.
  • O MACD usa a média móvel exponencial de preços passados para dar seus sinais.
  • O Heiken-Ashi usa informações dos candles anteriores para dar sua própria forma.

Ou seja, sempre olhando para trás para tentar dar uma previsão do futuro. Sempre olhando o que já foi. Assim, sempre estaremos um passo atrás, chegando atrasado em todos os movimento, comprando na máxima e vendendo na mínima (sem julgamentos, quem nunca?), não é bem isso que queremos, correto?

Há, porém, uma condição de mercado onde esses indicadores podem brilhar.

É quando determinado ativo está em tendência, seja ela de alta ou de baixa.

Num mercado de lado, que ocorre 70% das vezes, eles irão falhar, e logo mostrarei o porque.

Quando há uma tendência, essa é a hora dos indicadores fazerem um bom trabalho.

Um Canadense de Visão

Há um trader do Canadá chamado Andrew Aziz idealizador do site Bear Bull Traders. Eles oferecem educação para traders com foco em análise técnica e price action.

Andrew escreveu um livro em 2015, portanto, ainda atual, chamado “How to Day Trade for a Living“, onde conta toda sua rotina como trader bem como o “como” que ele faz seus trades.

Recomendo a leitura para você que quer conhecer mais de uma análise técnica com qualidade. O que Andrew faz, basicamente, é acordar bem cedo, se preparar mentalmente e fisicamente e depois passar um scanner de ações no mercado americano a fim de encontrar ações que, potencialmente, irão ter um dia tendencial.

A partir daí, ele escolhe alguns papéis para montar sua watchlist (a lista não chega a 10, talvez a 5 ou 6) e fica de olho no comportamento deles.

Andrew usa a VWAP, suportes e resistências, indicadores e etc, e só funciona porque esses ativos terão grande volume de negociação e possivelmente desenvolverão um dia tendencial. Faz uma baita diferença isso!

A famosa bluechip…

Hum… Ok, entendi, mas, por que num mercado de lado os indicadores falham?

Na verdade é bem simples o por que. Quando olhamos um mercado de lado num gráfico, podemos ver, facilmente, o tal do suporte e resistência desse canal em que está sendo negociado.

Vamos olhar os gráficos abaixo. Ambos são da Petrobrás (PETR4) do dia 12/11/2018.

Aqui fica fácil perceber um ativo andando de lado, em um canal. Principalmente depois do meio-dia. Fácil perceber que “não vai a lugar algum” esse papel nesse dia, certo?

Vamos agora olhar de uma outra maneira:

Perceba que, mesmo num mercado de lado, há o que chamamos de “micro tendências“, ou seja, o ativo pode não sair do lugar no dia, ou mesmo andar muito pouco, todavia, dentro desse “nada” há movimentos, pequenos, de alta e de baixa.

Seriam “micro momentums“. Esses momentums, porém, são tão rápido e curtos que “tiltam” os indicadores, fazendo com que os mesmos (que, lembrem-se, usam dados passados) deem sinais de compra ou venda onde não tem, é aí que você torra toda sua grana na corretora seguindo os mesmos.

O falso positivo

Certo, mas, eu fiz um configuração ‘x’ no meu MACD usando esses dados do dia 12 de Novembro e deu certo, no backtest eu ganhei muito dinheiro!

Sim, isso é possível. Se você fizer ‘n’ configurações diferentes, eventualmente você achará uma que faça com que os sinais sejam verdadeiros e não falsos.

Só que você terá que reconfigurar todo dia e sem toda a informação. Olhando para o gráfico e tendo todas as informações de preços, é fácil achar uma configuração que funcione.

Agora, imagine que o dia está começando e que você não sabe nada das informações do ativo, um gráfico em branco (como todos no começo de um dia).

Qual configuração usar? Entende o perigo dessas ferramentas quando mal usadas?

Competição interna

Outro fator de extrema importância é que cada indicador tem sua própria fórmula para dar seu sinal.

Muitas vezes, o que você vai se deparar com, é: IFR indicando compra e outro indicador qualquer indicando venda.

E agora? Qual seguir?

Além de perigoso usar indicadores da forma errada é também perigoso usá-los em excesso.

A matemática burra

Não sejam tolos de colocar uma fórmula matemática a frente de você. Os indicadores podem, sim, ajudar e esse é o papel deles.

Se você é um ávido usuário dos mesmos ou pretende ser esse post não foi concebido para desencorajar a usá-los, mas, sim, para alertar que há formas melhores de usar do que somente plotar na tela e seguir os sinais.

Particularmente, não gosto de indicadores e não os uso, com exceção da VWAP (com certeza não para me dar sinais de compra e venda), mas, reconheço que há uma grande quantidade de pessoas que usam os mesmos e acho que vale o alerta.

Não deixem de ler o livro de Andrew, vai abrir a cabeça de vocês para novas ideias de como usar esses indicadores.

Um exemplo funcional prático

VWAP – utilizando com inteligência

Um tipo de trade que costuma dar (atente para o ‘costuma’, não é tiro certo 100% das vezes) muito certo quando opero o dólar é o de pullback na VWAP.

Como funciona?

Simples: num dia forte de tendência eu espero o dólar fazer um pullback até a região da VWAP e, quando chega lá, observo o comportamento do preço para saber quando entrar no trade.

Observe o gráfico abaixo do dia 18/10/18 (candles de 30 minutos):

Note como a VWAP (linha roxa) pode ajudar nesse tipo de trade. Vemos aqui dois pontos para entrada nesse trade.

Ponto para os indicadores!

IFR em dia de tendência

Esse é outro trade que funciona bem em ações em dia de tendência. Mais uma vez, não é 100% de acerto, mas, quando acertar vai ganhar muito e quando errar vai perder pouco (isto é, se souber stopar e não ficar apegado à posição).

Como funciona?

Espere o sinal de entrada do indicador e, quando chegar na linha de sinal, observe o comportamento dos preços para entrar no melhor nível possível.

Observe o gráfico da Petrobrás abaixo do dia 14/11/18 (PETR4 – 10 minutos):

Aqui podemos notar um dia de forte tendência. Logo no começo do dia tivemos a chance de entrar comprado em PETR4, e logo depois a chance de sair desse trade com gain. Os mais arrojados poderiam até inverter a posição, embora eu mesmo não faria isso.

Momentos depois, na acumulação, observe que a linha de sobre-venda é tocada duas vezes, para logo em seguida o papel fazer uma grande alta e já tocar a linha de sobre-compra, indicando o encerramento do trade.

Ainda no final do dia houve a chance de fazer um último trade entrando comprado para encerrar a posição no final do pregão. Eu acho bem arriscado fazer qualquer trade no final do dia por motivos de liquidez, mas, aí é do perfil de cada um.

Mais um ponto para os indicadores!

Enxergando com clareza

A partir dos exemplos citados acho que fica mais claro o por que dos indicadores poderem ser a benção ou maldição do trader.

Se você é do tipo que gosta de usar indicadores, algumas dicas:

Negociar ativos líquidos

A natureza desses ativos torna mais fácil a entrada e saída “sem sufoco”.

Negociar ativos que vão, provavelmente, desenvolver tendência ao longo do dia

Depois de tudo que escrevi fica óbvio o por que. Escolha a dedo os ativos que vai operar antes da abertura do pregão. Fique ligado em todas as notícias e indicadores econômicos que impactam em sua performance.

Faça uma lista com esses ativos e observe SOMENTE eles

Você não vai fazer todo esse preparo para, quando começar o pregão, ficar rodando de ativo em ativo feito besta. Faça sua ‘watchlist’ e mantenha o foco nela. É dela que vão sair seus trades.

Escolha poucos indicadores para observar

Como dito anteriormente, indicadores podem dar sinais divergentes para o mesmo ativo na mesma hora.

Escolha um ou dois para manter na tela. Se souber filtrar bem as informações que vêm deles, vai conseguir chegar numa conclusão clara do que fazer.

Mantenha a calma

Não é porque um dos seus ativos tocou alguma linha (supondo que esteja usando IFR) que você é obrigado a fazer o trade. Lembre-se: ainda existem os falsos positivos.

Quando o ativo cruzar a linha observe a movimentação dos preços para uma melhor entrada.

Não vire torcedor

Bom, esse conselho vale para qualquer trader em qualquer situação.

Se o trade não está desenrolando como “deveria”, STOP!

Espero com esse post ter contribuído para clarear suas ideias sobre o uso dos indicadores técnicos.

Como disse anteriormente, eu não sou muito fã deles, mas, reconheço que há potencial para quem sabe usar com inteligência.

Guilherme Farina

Guilherme Farina foi aluno da Formação Day Trader Pro e hoje faz parte da equipe DTP. É formado em Administração de Empresas pela PUC-SP e pós-graduado em Economia pela FGV-SP. Empresário desde 2009 e investidor no mercado financeiro desde 2005, iniciou sua carreira como day trader em 2017. Hoje é um grande estudioso da área e se define como "um trader em eterno processo de aprendizado".
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